Quem sou eu

Minha foto
Pesquisador da área de leitura e literatura. Fã de Guimarães Rosa, Miguel Sanches Neto e Ana Maria Machado.Profissional da educação.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Barroco

O período Barroco tem como principais características: a presença de linguagem figurada, uso de antíteses, paradoxos, metáforas, hipérboles e repetição. O principal representante desta escola no no Brasil é Gregório de Matos e em sua produção literária é possível encontrar três vertentes: satírica que, não raro, apresenta aspectos eróticos; lírica, de fundo religioso e moral e sacra, onde o que mais sobressai é seu senso do pecado. Acrescente-se a essas o conhecimento da realidade através dos sentidos, isso ocorre com o emprego de palavras que descrevem cores, perfumes e sensações táteis, auditivas e visuais; uso de símbolos que demonstram a efemeridade da vida: fumaça, vento, neve, chama, água, espuma etc.; emprego de frases interrogativas, demonstrando a incerteza do homem daquele tempo. Além disso, na temática do período Barroco predominaram temas como morte, fugacidade da vida e ilusão, castigo, heroísmo, cenas trágicas, apelo à religião, ao céu e arrependimento. Abaixo, serão apresentados alguns textos de Gregório de Matos para exemplificar algumas dessas características.


Buscando a Cristo

(estrofe 1)

1. A vós correndo vou, braços sagrados,

2. Nessa cruz sacrossanta descobertos,

3. Que, para receber-me, estais abertos,

4. E, por não castigar-me, estais cravados.

(estrofe 2)

5. A vós, divinos olhos, eclipsados

6. De tanto sangue e lágrimas cobertos,

7. Pois, para perdoar-me, estais despertos,

8. E, por não condenar-me, estais fechados.

(estrofe 3)

9. A vós, pregados pés, por não deixar-me,

10. A vós, sangue vertido, para ungir-me,

11. A vós, cabeça baixa, pra chamar-me.

(estrofe 4)

12. A vós, lado patente, quero unir-me,

13. A vós, cravos preciosos, quero atar-me,

14. Para ficar unido, atado e firme.

  • 1 – 2 – 3 – 4. O poeta vê no corpo crucificado de Cristo um abrigo ou proteção que sua alma precisa.
  • 5 – 6 – 7 – 8. Por um lado, o corpo crucificado representa sofrimento, mas ao mesmo tempo dará ao poeta o perdão e a salvação, já que Cristo sofreu para salvar a humanidade e seu sangue tem sentido resgatador.
  • A medida que o poeta faz a descrição do corpo de Cristo, revela uma dimensão espiritual do sofrimento físico (braços cravados, olhos encobertos de sangue e lágrimas, pés pregados).
  • 3 – 4. Os braços abertos podem amparar e abrigar o pecador, porem estão cravados e imóveis para não castigar.
  • 7 – 8. Os olhos, encobertos de sangue e lágrimas mostram dor, mas estão abertos para o perdão e e fechados para a condenação.
  • 9. Os pés pregados e imóveis reforçam a ideia de grande sofrimento ao mesmo tempo que sugerem que Cristo não sairá de perto do pecador.
  • 10. O sangue vertido na cruz adquire um valor simbólico, pois é através desse líquido que o pecador será salvo.
  • 11. A cabeça baixa, mostra o fim das forças de Cristo e a sua morte física, porém é vista como uma atitude de amor, pois Ele baixa os olhos para a Terra, chamando o pecador.
  • 12 – 13 – 14. O desejo de união espiritual com Cristo é representado por um desejo de união física.
  • 1 – 5 – 9 – 10 – 11 – 12 – 13. O poeta inicia muitos dos versos desse poema com a expressão “a vós”, o que dá ao texto um sentido de oração.
  • Estão presentes no poema a razão e a emoção, a tensão entre a consciência do pecado e o desejo de salvação.
  • O soneto tem um tom que transmite a angustia do poeta diante de Cristo, ao mesmo tempo justiceiro e salvador.

Expressões amorosas a uma dama a quem queria - a Maria dos povos, sua futura esposa.


Discreta e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora,
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos e boca, o Sol e o dia:

Enquanto com gentil descortesia,
O Ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança brilhadora
Quando vem passear-te pela fria.

Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trata, a toda a ligeireza
E imprime em toda flor sua pisada.

Oh não aguardes que a madura idade
te converta essa flor, essa beleza,
em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

Gregório de Mattos

O tema religioso é muito comum nas composisções do periodo barroco, isso pode ser justificado pela pressõa que a igrja católica exercia nas pessoas no perído historico compreendido entre os séculos XV e XVI, além da Reforma e da Contra-Reforma religiosa. Isso faz com que o homem daquele período vivesse uma constante inquietação e com muitas dúvidas. Observe o soneto abaixo e responda as questões propostas.

Soneto

(estrofe 1)

1. Ardor em firme Coração nascido;

2. pranto por belos olhos derramado;

3. incêndio em mares de água disfarçado;

4. rio de neve em fogo convertido:

(Estrofe 2)

5. Tu, que um peito abrasas escondido;

6. tu, que em um rosto corres desatado:

7. quando fogo, em cristais aprisionado;

8. quando cristal em chama derretido:

(estrofe3)

9. Se és fogo, como passas brandamente?

10. Se és neve, como queimas em porfia?

11. Mas ai, que andou Amor em ti prudente!

(estrofe 4)

12. Pois, para temperar a tirania,

13. como quis que aqui fosse a neve ardente,

14. permitiu parecesse a chama fria.


A ideia central do poema é a dificuldade em conciliar o sentimento amoroso e expressá-lo; ele foi dedicado aos afetos e lágrimas derramadas na ausência da amada. Para mostrar essa contradição, o autor compõe o soneto a partir de antíteses (calor e frio, fogo e água; nos versos 3 e 4 da primeira esrofe e 9 e 10 da terceira). Nos ultimos versos as antíteses evoluem: “neve ardente”, “chama fria” (nos versos 13 – 14) reforçando a ideia de impossibilidade de expressar o sentimento. Há uma grande tensão no poema refletindo bem os conflitos do homem desta época que buscava uma síntese entre idéias opostas.Nos versos 3 e 4 há a presença de metáforas (característica muito marcante do período barroco), para se referir as lágrimas derramadas.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Páginas