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Pesquisador da área de leitura e literatura. Fã de Guimarães Rosa, Miguel Sanches Neto e Ana Maria Machado.Profissional da educação.

domingo, 14 de novembro de 2010

FUGA DOS ESTEREÓTIPOS EM “MENINA BONITA DO LAÇO DE FITA” DE ANA MARIA MACHADO

A questão racial,é um tema pouco presente e pouco estudado na literatura dirigida para crianças. E quando o fazem sempre vêm carregadas de estereótipos, o negro é freqüentemente visto como um serviçal ou com um papel de pouco destaque na historia. Sempre se privilegia as personagens de cor clara, que o diga a Branca de Neve.

Na obra, objeto deste estudo, Menina bonita do laço de fita (MBLF) de Ana Maria Machado, tem-se a desconstrução dos estereótipos envolvendo a raça negra, numa narrativa leve – linear e acessível – a autora consegue demonstrar uma valorização do negro, ao mesmo tempo convida as crianças a entrarem no mundo do imaginário – do fabuloso – sem perder de vista o contexto real, literal. Com ilustrações de Claudius, a obra chama a atenção também para a mistura de raças, e também para a grande diversidade cultural que há em nosso país e da importância de se respeitar as diferenças.

O TEXTO ESCRITO

No inicio do texto o narrador utiliza o que Fanny Abramovich (1989) chama de “senha mágica”, as três palavras “Era uma vez...”, a partir daí tudo é possível e a historia discorre de forma direta e encantadora.

A descrição feita da menina aproxima-se do poético, cheio de metáforas; porém de maneira muito singela, com elementos presentes no cotidiano das crianças, demonstrando assim a preocupação da autora com os pequenos leitores. Observe-se esta passagem:

Os olhos dela pareciam duas azeitonas

pretas, daquelas bem brilhantes.

Os cabelos eram enroladinhos e bem

negros, feitos fiapos da noite. A pele era

escura e lustrosa, que nem o pêlo da

pantera negra quando pula na chuva. [1]

Percebe-se nessa descrição feita da menina, como o narrador chama a atenção para a sua cor, sem fazer qualquer referência direta a ela. A escolha das palavras que compõem a descrição – pretas, negros, escura, pantera negra – mostram de forma subjetiva a cor da menina. A autora poderia lançar mão de vários adjetivos para se referir a beleza dela, no entanto, se utiliza de qualificadores da cor negra, presentes no cotidiano de todos nós para mostrar que da mesma forma que se pode elogiar pessoas (ou personagens nesse caso) brancos, com elementos naturais, se pode fazer o mesmo com a raça negra.

Além do fato de ela ser negra e linda (...) “a mãe gostava de fazer trancinhas no cabelo dela e enfeitar com laço de fita colorida.” [2] Sabe-se que na antiguidade os soldados utilizavam laços de fita de cores diversas par identificar e diferenciar as suas nações das inimigas, ou seja, o laço de fita é um sinal que marca e distingui. Pensando nisso, o laço de fita que a mãe usava para dar mais beleza a sua filha, pode ser entendido como um sinal de diferenciação dela em relação a todas as outras meninas, por que com ele (...) “Ela ficava parecendo uma princesa das Terras da África, ou uma fada do Reino de Luar.”[3] Nessa passagem percebe-se a união do fantástico com o real, ao compará-la com uma princesa das Terras da África, a autora faz uma alusão a negritude e a nobreza da menina, nesse momento o negro é visto como pertencente a uma classe nobre e pode almejar um reinado, ou seja, está em evolução. Ao comparar a menina a uma fada do Reino de Luar, tem-se a presença do fabuloso, do imaginário – tão agradável as crianças! – entre as características da personagem. De acordo com Massaud Moises, a fábula “no geral, é protagonizada por animais irracionais, cujo comportamento, preservando as características próprias, deixa transparecer uma alusão, via de regra satírica ou pedagógica, aos seres humanos.” [4] Recorre-se a essa definição de Moises pois, na seqüência dessa ultima descrição da menina, é introduzido o personagem antagonista, o coelho[5]. É a presença dele que irá evidenciar a cor da menina, uma vez que, se trata de (...) “um coelho branco, de orelha cor-de-rosa, olhos vermelhos e focinho nervoso sempre tremelicando.” [6] É pelos olhos desse coelho que a beleza negra da menina fica mais nítida para o leitor. Para que isso ocorra a autora lança mão de um grande contraste.

Após a introdução do coelhinho na história, a narrativa “deixa de lado” a beleza da menina e passa, através dos atos dela, a caracterizar a sua superioridade intelectual frente ao coelho. A menina passa agora a ser uma referencial de beleza ao coelho e deixa de ser apenas uma menina para ser tratada como a “menina bonita do laço de fita” que possui um segredo, o qual será insistentemente procurado pelo coelho através de uma pergunta que se repetirá por toda a obra, como um eco. Eco esse, que é um dos elementos mais apreciados pelas crianças, uma vez que, a repetição permite prender a atenção do pequeno leitor (se a obra for boa, do contrario jamais será apreciada pelas crianças).

A insistente indagação do coelho,

- Menina bonita do laço de fita, qual é

teu segredo pra ser tão pretinha?

A menina não sabia, mas inventou:

- Ah, deve ser porque (...)

abre uma série de possibilidades, as quais a menina desconhecia, mostrando a sua inocência e passando as crianças leitoras a missão de, a sua maneira, descobrir qual é o segredo, que algumas páginas a frente é desvendado por um adulto, a mãe da menina, a mesma pessoa que gostava de enfeitar o cabelo dela com laço de fita.

A mãe da menina já havia aparecido no início da história, porem não foi descrita pelo narrador, pois até aquele momento não havia um conflito[7], esse foi criado pela presença do coelho. Para solucionar problema, entra em cena a mãe da menina e afirma que a beleza dela é “- Artes de uma avó preta que ela tinha...” [8], a partir daí, o mundo real descortina-se para o coelho que passará a olhar para si mesmo, ele toma consciência de sua raça e passa a valorizar o convívio e relações com seres iguais a ele.

E não precisou procurar muito.

Logo encontrou uma coelhinha escura

como a noite, que achava aquele

coelho branco uma graça. [9]

Essa “coelhinha escura” é o elemento de ligação para o coelho entre o fantástico e o real. Nesse momento, “entra em cena” o exemplar, tão característico das fábulas. O coelho queria muito ter uma filhinha que fosse igual a menina que conhecera, mas não sabia qual era o segredo, com a presença do adulto tudo foi revelado e ele, seguindo o conselho da mãe da menina bonita do laço de fita, casou-se com uma coelhinha preta e teve vários filhos das mais variadas cores. Aqui a autora chama a atenção para a diversidade cultural e racial, presente no cotidiano das crianças. Dessa forma, ela “abre as portas” do imaginário e coloca as crianças frentes as diferenças de seus colegas de classe, da comunidade em que vive, etc..


[1] MACHADO, Ana Maria. Menina bonita do laço de fita; ilustração Claudius. 7a edição. São Paulo: Ática, 2006.

[2] Op.cit.

[3] idem op.cit

[4] MOISES, Massaud. Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix, 1974, p. 226.

[5] Cf. MOISES, Massaud, op.cit, p.28.

[6] Op.cit.

[7] consultar o dicionário de termos literários não o de Massaud moises

[8] op.cit.

[9] op.cit.

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