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Pesquisador da área de leitura e literatura. Fã de Guimarães Rosa, Miguel Sanches Neto e Ana Maria Machado.Profissional da educação.

domingo, 3 de outubro de 2010

Crítica

Olinda Beja: um olhar nativo sobre a cultura africana

A escritora são-tomense Olinda Beja, publicou ao longo de sua carreira várias obras que versam principalmente sobre temas da cultura de seu país de origem, já que desde os dois anos de idade vive em Portugal, a maioria dessas obras são compostas de poemas. Em 2005 publica a obra Pé-de-perfume, na qual é possível perceber que a poesia de outrora não a deixou neste livro de contos.

Através de uma prosa poética, a autora transmite ao leitor um tom lírico, afetivo e por vezes saudosista. Prova disso, são os dois contos Menino D’Ôbô e Olhos de Ma Chêchê, neles se percebe a presença de um lirismo poético em possíveis alusões a lendas de seu torrão natal. No primeiro, logo de saída, o leitor se depara com o seguinte: “Contar sua estória, menino d’ôbô, é atravessar a ilha de uma ponta à outra como quem atravessa o mundo. Este anuncio feito pela escritora já dá uma ideia ao leitor do local em que se passa a lenda, já que a ilha a qual ela se refere, certamente, é a de São Tomé e Principe, para onde a escritora voltou aos 37 anos. Neste mesmo parágrafo ela descreve alguns detalhes da praia, algo que somente um nativo, ou alguém muito familiarizado com o local poderia fazer. O conto segue ainda aludindo ao costume dos mais velhos de contar estórias do passado, uma atitude que ajuda a manter a cultura do local, como nesse trecho: “Foi assim que avó Juta a contou a nós, seus netos de Guadalupe e Morro Peixe muito antes da vida nos atirar pelos sete cantos do mundo.” É nítido nesse trecho o tom saudosista, uma lembrança de algo marcante, um contato estreito com a avó e um tom de lamento por ter de deixar, tão pequena, a sua terra, Guadalupe, e ir pra a Lisboa, aonde seguiu a sua carreira de sucesso.

De acordo com a história da África, a ilha de São Tomé e Príncipe no século XV era um grande produtor de cana-de-açúcar, mas com a concorrência do Brasil no século seguinte entrou em declínio, tornado-se um “deposito” de escravos. Esse fato não escapa a escritora, que conta que avó Juta “... ficava séria quando falava de gente acorrentada que um dia chegou à ilha e nunca mais conseguiu encontrar o caminho de regresso.”. É nesse contexto que a lenda do Menino D’ôbô parece ter inicio: “Um dia, porém, viste o chicote cair no teu corpo. Como aos outros escravos. Eras ainda um menino. Pequeno de mais para a grandeza da roça onde te despejaram. Mas tinhas nascido livre”. Essa liberdade é metaforizada pela escritora com o vento, como se o menino, escravizado, fugiu e tomou o rumo de seu destino e depois disso nunca mais foi visto, o que diz a lenda é que ele caminhou várias léguas, se alimentado de frutos, raízes e tudo o mais que a natureza pode oferecer e depois de passadas dez luas um forte vento assolou a ilha “e Sumu Zéfé, o curandeiro mais famoso daquele tempo, contou que vira no seu d’jambi o menino d’ôbô entrar em todas as casas e não sair mais”. Assim, a lenda e o sofrimento pelos qual os escravos passaram, simbolizado no menino, ainda hoje é lembrado pelo povo e preservado com todo respeito e carinho, como prova este conto de Olinda Beja.

Esse tom poético se mantém, talvez com mais intensidade, em “Olhos de Ma Chêchê”. Dividido em três partes, esse conto narra a história de uma menina que nasceu muito linda “na roça grande de Água Izé”. Trata-se de uma aldeia na Ilha de São Tomé e Príncipe produtora de café e cacau, portanto novamente a autora faz alusão ao seu país de origem. Apesar de muito bela o principal encanto de Ma Chêchê estava nos olhos que não eram iguais aos de ninguém, pois neles se podia ver o mar e se podia ler tudo, devido ao imenso azul deles, “já viu negra com olhos da cor do mar?”. Essa é uma indagação feita pela escritora neste conto, louvando desta forma a beleza da raça de seu povo e do mar de sua terra, aproximando um e outro. Nesse conto, assim como em Menino D’ôbô, palavras estranhas a nossa língua figuram em muitas passagens, o que não impede a leitura e nem a compreensão dos textos, já que da forma como são apresentadas, pelo contexto, se pode inferir o seu sentido. Assim, é possível perceber um esforço por parte da autora em divulgar os costumes e as peculiaridades de sua terra que, apesar de ter como língua oficial o português, possui a sua autonomia de registro, comprovando a grande riqueza da língua.

Por fim, o leitor que se aproximar da obra de Olinda Beja, especialmente Pé-de-perfueme, será transportando a um mundo de lendas contadas por uma nativa da terra de São Tomé e Príncipe e certamente irá se inebriar com o perfume daquela árvore, que dá título ao livro, típica da ilha que gerou a escritora. Além disso, o lirismo da prosa poética dessa escritora é um convite a mais para se aventurar em toda a sua obra que, longe de clichês, divulga ao mundo a riqueza da cultura do povo africano.

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