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Pesquisador da área de leitura e literatura. Fã de Guimarães Rosa, Miguel Sanches Neto e Ana Maria Machado.Profissional da educação.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Crítica

“No meio do caminho tinha uma pedra[1]

O título desta crítica aproveita um verso do famoso poema de Carlos Drummond de Andrade, mas afinal o que ele tem a ver com uma crítica a obra Chove sobre minha infância[2] do paranaense Miguel Sanches Neto? A resposta a esta indagação vem ao longo das páginas desta afetuosa obra, deste escritor, natural de Bela Vista do Paraiso, interior do Paraná.

Chove sobre minha infância é o primeiro romance de Sanches Neto. Antes de ser o brado de um garoto reprimido ao longo de sua infância – e ai está a “pedra no caminho” –, é o grito de muitos outros jovens que de alguma maneira sofreram as mesmas repressões e que encontram em seus sonhos, em sua coragem, em sua vontade de mudar o destino imposto por outros, uma saída para aquelas agruras.

A construção do romance em primeira pessoa deixa o leitor tentado a imaginar que se trata de autobiografia, no entanto é possível perceber que a narrativa ocorre tempos depois por um adulto, mesmo quando os fatos que estão sendo contados vêm da voz de uma criança, portanto se trata de recordações e estas nem sempre são fidedignas, afinal alguns anos se passaram. Assim, o que se pode perceber é que o romance está situado metade em fatos verídicos, como o autor ter nascido em Bela Vista do Paraíso e ter se mudado com a família para Peabiru, e metade ficção, em detalhes que dificilmente um adulto lembraria, já que muitos anos se passaram. Mas essa discussão é longa e pouco proveitosa para o intento deste texto, que visa apresentar de maneira crítica as impressões de um leitor.

A narrativa da obra acontece de forma leve, assim o leitor não tem dificuldade para vencer as 254 páginas que a compõe. Ela trata das “denúncias” de um garoto que não conseguiu descobrir o sentido de sua vida e ao longo dessa procura passa por todas as fases de descobertas de uma criança, de um adolescente e de um adulto. O primeiro deslumbramento com o corpo do sexto oposto, as dificuldades de relacionamento, com colegas de escola, com a família, com as mulheres e principalmente com o padrasto, que representava para o menino uma tentativa de substituição do pai, o qual ele amava muito, mas tragicamente o perdeu quando ele era ainda muito pequeno. Tudo parece contribuir para o fracasso daquele menino, no entanto todas as dificuldades enfrentadas aumentaram ainda mais a sua gana de atingir o sucesso.

Porém, o romance vai além das reminiscências das fases de uma pessoa antes de se tornar adulta, ele reflete sobre a condição das famílias que viviam da agricultura, além de refletir sobre o êxodo rural, muito comum em cidades interioranas. O padrasto de Miguel, o narrador-protagosnista de Chove sobre a minha infância, é um agricultor, que trabalhava duro para conquistar e manter a sua terra e nela queria ver todos os filhos trabalhando, inclusive o garoto Miguel, que desde cedo encontrou inclinação para o trabalho artístico com as palavras, porem não era isso que Sebastião, o padrasto, queria para ele. Esse choque de interesses causava muitas brigas entre os dois. Dessa forma, ao mesclar em sua obra a realidade do interior de seu estado com a realidade interna de uma criança, Miguel Sanches Neto delata a estagnação do interior devido ao grande número de pessoas que tem de deixar o seu torrão natal e ir para uma cidade grande a qual absorve toda a sua capacidade intelectual.

Ao afirmar, no final da obra, quando retorna a Peabiru, local onde passou grande parte da vida, que vive numa cidade chamada “memória”, o escritor ata as duas pontas de sua vida, tal qual o famoso personagem de Machado de Assis, e prova para si mesmo e para o leitor que todos os sofrimentos que o acometeram por longos anos de sua vida o impulsionaram em direção ao sucesso.

Por fim, é possível perceber que este primeiro romance de Miguel Sanches Neto é na verdade um cartão de visita do escritor, que se apresentou ao público nacional inteiro, com todas as suas lembranças de um passado, ou partes dele, selecionadas para esta obra.



[1] ANDRADE, Carlos Drummond de. No meio do caminho. In. http://www.memoriaviva.com.br/drummond/index2.htm. Acesso em: 25 abr 2010.

[2] SANCHES NETO, Miguel. Chove sobre a minha infância. Rio de Janeiro: Record, 2000.

domingo, 3 de outubro de 2010

Crítica

Olinda Beja: um olhar nativo sobre a cultura africana

A escritora são-tomense Olinda Beja, publicou ao longo de sua carreira várias obras que versam principalmente sobre temas da cultura de seu país de origem, já que desde os dois anos de idade vive em Portugal, a maioria dessas obras são compostas de poemas. Em 2005 publica a obra Pé-de-perfume, na qual é possível perceber que a poesia de outrora não a deixou neste livro de contos.

Através de uma prosa poética, a autora transmite ao leitor um tom lírico, afetivo e por vezes saudosista. Prova disso, são os dois contos Menino D’Ôbô e Olhos de Ma Chêchê, neles se percebe a presença de um lirismo poético em possíveis alusões a lendas de seu torrão natal. No primeiro, logo de saída, o leitor se depara com o seguinte: “Contar sua estória, menino d’ôbô, é atravessar a ilha de uma ponta à outra como quem atravessa o mundo. Este anuncio feito pela escritora já dá uma ideia ao leitor do local em que se passa a lenda, já que a ilha a qual ela se refere, certamente, é a de São Tomé e Principe, para onde a escritora voltou aos 37 anos. Neste mesmo parágrafo ela descreve alguns detalhes da praia, algo que somente um nativo, ou alguém muito familiarizado com o local poderia fazer. O conto segue ainda aludindo ao costume dos mais velhos de contar estórias do passado, uma atitude que ajuda a manter a cultura do local, como nesse trecho: “Foi assim que avó Juta a contou a nós, seus netos de Guadalupe e Morro Peixe muito antes da vida nos atirar pelos sete cantos do mundo.” É nítido nesse trecho o tom saudosista, uma lembrança de algo marcante, um contato estreito com a avó e um tom de lamento por ter de deixar, tão pequena, a sua terra, Guadalupe, e ir pra a Lisboa, aonde seguiu a sua carreira de sucesso.

De acordo com a história da África, a ilha de São Tomé e Príncipe no século XV era um grande produtor de cana-de-açúcar, mas com a concorrência do Brasil no século seguinte entrou em declínio, tornado-se um “deposito” de escravos. Esse fato não escapa a escritora, que conta que avó Juta “... ficava séria quando falava de gente acorrentada que um dia chegou à ilha e nunca mais conseguiu encontrar o caminho de regresso.”. É nesse contexto que a lenda do Menino D’ôbô parece ter inicio: “Um dia, porém, viste o chicote cair no teu corpo. Como aos outros escravos. Eras ainda um menino. Pequeno de mais para a grandeza da roça onde te despejaram. Mas tinhas nascido livre”. Essa liberdade é metaforizada pela escritora com o vento, como se o menino, escravizado, fugiu e tomou o rumo de seu destino e depois disso nunca mais foi visto, o que diz a lenda é que ele caminhou várias léguas, se alimentado de frutos, raízes e tudo o mais que a natureza pode oferecer e depois de passadas dez luas um forte vento assolou a ilha “e Sumu Zéfé, o curandeiro mais famoso daquele tempo, contou que vira no seu d’jambi o menino d’ôbô entrar em todas as casas e não sair mais”. Assim, a lenda e o sofrimento pelos qual os escravos passaram, simbolizado no menino, ainda hoje é lembrado pelo povo e preservado com todo respeito e carinho, como prova este conto de Olinda Beja.

Esse tom poético se mantém, talvez com mais intensidade, em “Olhos de Ma Chêchê”. Dividido em três partes, esse conto narra a história de uma menina que nasceu muito linda “na roça grande de Água Izé”. Trata-se de uma aldeia na Ilha de São Tomé e Príncipe produtora de café e cacau, portanto novamente a autora faz alusão ao seu país de origem. Apesar de muito bela o principal encanto de Ma Chêchê estava nos olhos que não eram iguais aos de ninguém, pois neles se podia ver o mar e se podia ler tudo, devido ao imenso azul deles, “já viu negra com olhos da cor do mar?”. Essa é uma indagação feita pela escritora neste conto, louvando desta forma a beleza da raça de seu povo e do mar de sua terra, aproximando um e outro. Nesse conto, assim como em Menino D’ôbô, palavras estranhas a nossa língua figuram em muitas passagens, o que não impede a leitura e nem a compreensão dos textos, já que da forma como são apresentadas, pelo contexto, se pode inferir o seu sentido. Assim, é possível perceber um esforço por parte da autora em divulgar os costumes e as peculiaridades de sua terra que, apesar de ter como língua oficial o português, possui a sua autonomia de registro, comprovando a grande riqueza da língua.

Por fim, o leitor que se aproximar da obra de Olinda Beja, especialmente Pé-de-perfueme, será transportando a um mundo de lendas contadas por uma nativa da terra de São Tomé e Príncipe e certamente irá se inebriar com o perfume daquela árvore, que dá título ao livro, típica da ilha que gerou a escritora. Além disso, o lirismo da prosa poética dessa escritora é um convite a mais para se aventurar em toda a sua obra que, longe de clichês, divulga ao mundo a riqueza da cultura do povo africano.

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