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Pesquisador da área de leitura e literatura. Fã de Guimarães Rosa, Miguel Sanches Neto e Ana Maria Machado.Profissional da educação.

domingo, 28 de novembro de 2010

Homenagem a Glória Kirinus


PERUANA DO BRASIL OU BRASILEIRA DO PERU?

Glória Mercedes Valdívia de Kirinus nasceu no Peru e vive no Brasil desde a década de 70. Além de autora de livros bilíngues de Literatura Infantil e Juvenil é Doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada (USP), Mestre em Literatura Brasileira (PUCRJ), Especialização em Literatura Brasileira (UFPR), Graduação em Letras português-espanhol (UFPR), Graduação em Turismo (UNT) Lima – Peru, Criadora e ministrante do curso itinerante LAVRA- PALAVRA; além disso, recebeu o título “Mérito da educação” no estado do Amapá e ”Bosque da Leitura” em Ponta Grossa; representante da AEI-LIJ (Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infanto-Juvenil no Paraná) e autora do livro teórico Criança e Poesia na Pedagogia Freinet.

Trata-se de uma importante representante da cena literária do Paraná, reconhecida nacionalmente e que, no entanto, conta com poucos estudos publicados acerca de sua obra.

Sua primeira publicação foi O sapato falador em 1985; em 1988 publica Se tivesse tempo; em 1990 O menino do mar; em 1993 Formigarra Cigamiga; em 1997 são publicas quatro obras: Sete quedas, sete anões e um dragão; O galo cantou por engano; O camelo e o camelô e Tartalira, este indicado para participar da Feira do Livro de Frankfurt. Em 1998 é lançado El niño e Quando as montanhas conversam. Terminando a década de 90, no ano 2000 é lançada a versão bilíngue de Se tivesse tempo/ Si tuviera tiempo; em 2002 são publicadas as obras Lâmpada de Lua/ Lámpara de Luna e Aranha Castanha e outras tramas; em 2004 publica Te conto que me contaram e em 2005 Quando chove a cântaros. Por este rol, percebe-se que Glória Kirinus é uma artista de grande produção literária e dedicação ao seu ofício, uma vez que, ainda hoje está em intenso processo criativo, não somente de escrita, mas também no que tange o incentivo a leitura e a produção literária de novos escritores.

Aqui foram apresentadas algumas das realizações desta escritora estrangeira, que foi acolhida por nossa pátria e hoje carrega a dúvida, se peruana do Brasil ou brasileira do Peru. No entanto, este impasse é resolvido pela escritora sem muita dificuldade, escreve dobrado, em sua língua materna e em língua portuguesa. Saem ganhado os dois povos, que desfrutam das histórias criadas por ela com a mesma fruição.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Entrevista com o escritor Milton Hatoum no Canal Livre

Milton Hatoum lamenta a má formação do leitor no Brasil e admite não ter tempo para ler autores contemporâneos, porém volta sempre a leitura de obras clássicas. Hatoum afirma que é importante um diálogo com professores, pois a universidade e a escola formam leitores "e é difícil formar um bom leitor".

domingo, 14 de novembro de 2010

FUGA DOS ESTEREÓTIPOS EM “MENINA BONITA DO LAÇO DE FITA” DE ANA MARIA MACHADO

A questão racial,é um tema pouco presente e pouco estudado na literatura dirigida para crianças. E quando o fazem sempre vêm carregadas de estereótipos, o negro é freqüentemente visto como um serviçal ou com um papel de pouco destaque na historia. Sempre se privilegia as personagens de cor clara, que o diga a Branca de Neve.

Na obra, objeto deste estudo, Menina bonita do laço de fita (MBLF) de Ana Maria Machado, tem-se a desconstrução dos estereótipos envolvendo a raça negra, numa narrativa leve – linear e acessível – a autora consegue demonstrar uma valorização do negro, ao mesmo tempo convida as crianças a entrarem no mundo do imaginário – do fabuloso – sem perder de vista o contexto real, literal. Com ilustrações de Claudius, a obra chama a atenção também para a mistura de raças, e também para a grande diversidade cultural que há em nosso país e da importância de se respeitar as diferenças.

O TEXTO ESCRITO

No inicio do texto o narrador utiliza o que Fanny Abramovich (1989) chama de “senha mágica”, as três palavras “Era uma vez...”, a partir daí tudo é possível e a historia discorre de forma direta e encantadora.

A descrição feita da menina aproxima-se do poético, cheio de metáforas; porém de maneira muito singela, com elementos presentes no cotidiano das crianças, demonstrando assim a preocupação da autora com os pequenos leitores. Observe-se esta passagem:

Os olhos dela pareciam duas azeitonas

pretas, daquelas bem brilhantes.

Os cabelos eram enroladinhos e bem

negros, feitos fiapos da noite. A pele era

escura e lustrosa, que nem o pêlo da

pantera negra quando pula na chuva. [1]

Percebe-se nessa descrição feita da menina, como o narrador chama a atenção para a sua cor, sem fazer qualquer referência direta a ela. A escolha das palavras que compõem a descrição – pretas, negros, escura, pantera negra – mostram de forma subjetiva a cor da menina. A autora poderia lançar mão de vários adjetivos para se referir a beleza dela, no entanto, se utiliza de qualificadores da cor negra, presentes no cotidiano de todos nós para mostrar que da mesma forma que se pode elogiar pessoas (ou personagens nesse caso) brancos, com elementos naturais, se pode fazer o mesmo com a raça negra.

Além do fato de ela ser negra e linda (...) “a mãe gostava de fazer trancinhas no cabelo dela e enfeitar com laço de fita colorida.” [2] Sabe-se que na antiguidade os soldados utilizavam laços de fita de cores diversas par identificar e diferenciar as suas nações das inimigas, ou seja, o laço de fita é um sinal que marca e distingui. Pensando nisso, o laço de fita que a mãe usava para dar mais beleza a sua filha, pode ser entendido como um sinal de diferenciação dela em relação a todas as outras meninas, por que com ele (...) “Ela ficava parecendo uma princesa das Terras da África, ou uma fada do Reino de Luar.”[3] Nessa passagem percebe-se a união do fantástico com o real, ao compará-la com uma princesa das Terras da África, a autora faz uma alusão a negritude e a nobreza da menina, nesse momento o negro é visto como pertencente a uma classe nobre e pode almejar um reinado, ou seja, está em evolução. Ao comparar a menina a uma fada do Reino de Luar, tem-se a presença do fabuloso, do imaginário – tão agradável as crianças! – entre as características da personagem. De acordo com Massaud Moises, a fábula “no geral, é protagonizada por animais irracionais, cujo comportamento, preservando as características próprias, deixa transparecer uma alusão, via de regra satírica ou pedagógica, aos seres humanos.” [4] Recorre-se a essa definição de Moises pois, na seqüência dessa ultima descrição da menina, é introduzido o personagem antagonista, o coelho[5]. É a presença dele que irá evidenciar a cor da menina, uma vez que, se trata de (...) “um coelho branco, de orelha cor-de-rosa, olhos vermelhos e focinho nervoso sempre tremelicando.” [6] É pelos olhos desse coelho que a beleza negra da menina fica mais nítida para o leitor. Para que isso ocorra a autora lança mão de um grande contraste.

Após a introdução do coelhinho na história, a narrativa “deixa de lado” a beleza da menina e passa, através dos atos dela, a caracterizar a sua superioridade intelectual frente ao coelho. A menina passa agora a ser uma referencial de beleza ao coelho e deixa de ser apenas uma menina para ser tratada como a “menina bonita do laço de fita” que possui um segredo, o qual será insistentemente procurado pelo coelho através de uma pergunta que se repetirá por toda a obra, como um eco. Eco esse, que é um dos elementos mais apreciados pelas crianças, uma vez que, a repetição permite prender a atenção do pequeno leitor (se a obra for boa, do contrario jamais será apreciada pelas crianças).

A insistente indagação do coelho,

- Menina bonita do laço de fita, qual é

teu segredo pra ser tão pretinha?

A menina não sabia, mas inventou:

- Ah, deve ser porque (...)

abre uma série de possibilidades, as quais a menina desconhecia, mostrando a sua inocência e passando as crianças leitoras a missão de, a sua maneira, descobrir qual é o segredo, que algumas páginas a frente é desvendado por um adulto, a mãe da menina, a mesma pessoa que gostava de enfeitar o cabelo dela com laço de fita.

A mãe da menina já havia aparecido no início da história, porem não foi descrita pelo narrador, pois até aquele momento não havia um conflito[7], esse foi criado pela presença do coelho. Para solucionar problema, entra em cena a mãe da menina e afirma que a beleza dela é “- Artes de uma avó preta que ela tinha...” [8], a partir daí, o mundo real descortina-se para o coelho que passará a olhar para si mesmo, ele toma consciência de sua raça e passa a valorizar o convívio e relações com seres iguais a ele.

E não precisou procurar muito.

Logo encontrou uma coelhinha escura

como a noite, que achava aquele

coelho branco uma graça. [9]

Essa “coelhinha escura” é o elemento de ligação para o coelho entre o fantástico e o real. Nesse momento, “entra em cena” o exemplar, tão característico das fábulas. O coelho queria muito ter uma filhinha que fosse igual a menina que conhecera, mas não sabia qual era o segredo, com a presença do adulto tudo foi revelado e ele, seguindo o conselho da mãe da menina bonita do laço de fita, casou-se com uma coelhinha preta e teve vários filhos das mais variadas cores. Aqui a autora chama a atenção para a diversidade cultural e racial, presente no cotidiano das crianças. Dessa forma, ela “abre as portas” do imaginário e coloca as crianças frentes as diferenças de seus colegas de classe, da comunidade em que vive, etc..


[1] MACHADO, Ana Maria. Menina bonita do laço de fita; ilustração Claudius. 7a edição. São Paulo: Ática, 2006.

[2] Op.cit.

[3] idem op.cit

[4] MOISES, Massaud. Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix, 1974, p. 226.

[5] Cf. MOISES, Massaud, op.cit, p.28.

[6] Op.cit.

[7] consultar o dicionário de termos literários não o de Massaud moises

[8] op.cit.

[9] op.cit.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Música de Brinquedo - novo disco do Pato Fu

Este ano a banda Pato Fu lançou o álbum Música de Brinquedo. O CD reúne várias músicas consagradas com um arranjo extremamente original, trata-se instrumentos de brinquedos. A originalidade não para por ai, muitas das vozes que interpretam as canções são de crianças que, junto com a vocalista Fernanda Takai, dão um charme especial ao disco produzido por John Ulhoa sob o selo da Rotomusic. Ao contrário do que muitos já fizeram a banda, que existe desde 1992, insere as crianças de forma muito particular, como se elas estivessem "brincando de cantar", o que as deixa a vontade diante do microfone, pois podem se comportar de acordo com a idade que tem. Esta talvez seja a principal sacada do Pato Fu! Pois não impõe aos pequenos o que deve ser feito, e com isso aproveita a mais bela arte produzida por eles, além disso "[...] nunca se sabe o que uma criança vai fazer. Às vezes ela não faz o que você quer. E às vezes o que ela faz é muito melhor do que o que você queria", afirma John Ulho. De acordo com ele, a banda não queria "[...] aquela sonoridade 'coral de crianças', e sim pequenas participações, marcantes e carregadas da inocência e desafinação pura de espírito que só as crianças conseguem." O trabalho empregado na produção desta obra pode ser conferido no site http://www.patofu.com.br/musica-de-brinquedo, que tem vários vídeos que contam a trajetória do álbum além dos mais recentes shows da banda. Só resta a nós, admiradores da arte musical e infantil, ouvirmos várias vezes este álbum delicioso pela mistura de vozes e sonoridade marcante e peculiar.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Crítica

“No meio do caminho tinha uma pedra[1]

O título desta crítica aproveita um verso do famoso poema de Carlos Drummond de Andrade, mas afinal o que ele tem a ver com uma crítica a obra Chove sobre minha infância[2] do paranaense Miguel Sanches Neto? A resposta a esta indagação vem ao longo das páginas desta afetuosa obra, deste escritor, natural de Bela Vista do Paraiso, interior do Paraná.

Chove sobre minha infância é o primeiro romance de Sanches Neto. Antes de ser o brado de um garoto reprimido ao longo de sua infância – e ai está a “pedra no caminho” –, é o grito de muitos outros jovens que de alguma maneira sofreram as mesmas repressões e que encontram em seus sonhos, em sua coragem, em sua vontade de mudar o destino imposto por outros, uma saída para aquelas agruras.

A construção do romance em primeira pessoa deixa o leitor tentado a imaginar que se trata de autobiografia, no entanto é possível perceber que a narrativa ocorre tempos depois por um adulto, mesmo quando os fatos que estão sendo contados vêm da voz de uma criança, portanto se trata de recordações e estas nem sempre são fidedignas, afinal alguns anos se passaram. Assim, o que se pode perceber é que o romance está situado metade em fatos verídicos, como o autor ter nascido em Bela Vista do Paraíso e ter se mudado com a família para Peabiru, e metade ficção, em detalhes que dificilmente um adulto lembraria, já que muitos anos se passaram. Mas essa discussão é longa e pouco proveitosa para o intento deste texto, que visa apresentar de maneira crítica as impressões de um leitor.

A narrativa da obra acontece de forma leve, assim o leitor não tem dificuldade para vencer as 254 páginas que a compõe. Ela trata das “denúncias” de um garoto que não conseguiu descobrir o sentido de sua vida e ao longo dessa procura passa por todas as fases de descobertas de uma criança, de um adolescente e de um adulto. O primeiro deslumbramento com o corpo do sexto oposto, as dificuldades de relacionamento, com colegas de escola, com a família, com as mulheres e principalmente com o padrasto, que representava para o menino uma tentativa de substituição do pai, o qual ele amava muito, mas tragicamente o perdeu quando ele era ainda muito pequeno. Tudo parece contribuir para o fracasso daquele menino, no entanto todas as dificuldades enfrentadas aumentaram ainda mais a sua gana de atingir o sucesso.

Porém, o romance vai além das reminiscências das fases de uma pessoa antes de se tornar adulta, ele reflete sobre a condição das famílias que viviam da agricultura, além de refletir sobre o êxodo rural, muito comum em cidades interioranas. O padrasto de Miguel, o narrador-protagosnista de Chove sobre a minha infância, é um agricultor, que trabalhava duro para conquistar e manter a sua terra e nela queria ver todos os filhos trabalhando, inclusive o garoto Miguel, que desde cedo encontrou inclinação para o trabalho artístico com as palavras, porem não era isso que Sebastião, o padrasto, queria para ele. Esse choque de interesses causava muitas brigas entre os dois. Dessa forma, ao mesclar em sua obra a realidade do interior de seu estado com a realidade interna de uma criança, Miguel Sanches Neto delata a estagnação do interior devido ao grande número de pessoas que tem de deixar o seu torrão natal e ir para uma cidade grande a qual absorve toda a sua capacidade intelectual.

Ao afirmar, no final da obra, quando retorna a Peabiru, local onde passou grande parte da vida, que vive numa cidade chamada “memória”, o escritor ata as duas pontas de sua vida, tal qual o famoso personagem de Machado de Assis, e prova para si mesmo e para o leitor que todos os sofrimentos que o acometeram por longos anos de sua vida o impulsionaram em direção ao sucesso.

Por fim, é possível perceber que este primeiro romance de Miguel Sanches Neto é na verdade um cartão de visita do escritor, que se apresentou ao público nacional inteiro, com todas as suas lembranças de um passado, ou partes dele, selecionadas para esta obra.



[1] ANDRADE, Carlos Drummond de. No meio do caminho. In. http://www.memoriaviva.com.br/drummond/index2.htm. Acesso em: 25 abr 2010.

[2] SANCHES NETO, Miguel. Chove sobre a minha infância. Rio de Janeiro: Record, 2000.

domingo, 3 de outubro de 2010

Crítica

Olinda Beja: um olhar nativo sobre a cultura africana

A escritora são-tomense Olinda Beja, publicou ao longo de sua carreira várias obras que versam principalmente sobre temas da cultura de seu país de origem, já que desde os dois anos de idade vive em Portugal, a maioria dessas obras são compostas de poemas. Em 2005 publica a obra Pé-de-perfume, na qual é possível perceber que a poesia de outrora não a deixou neste livro de contos.

Através de uma prosa poética, a autora transmite ao leitor um tom lírico, afetivo e por vezes saudosista. Prova disso, são os dois contos Menino D’Ôbô e Olhos de Ma Chêchê, neles se percebe a presença de um lirismo poético em possíveis alusões a lendas de seu torrão natal. No primeiro, logo de saída, o leitor se depara com o seguinte: “Contar sua estória, menino d’ôbô, é atravessar a ilha de uma ponta à outra como quem atravessa o mundo. Este anuncio feito pela escritora já dá uma ideia ao leitor do local em que se passa a lenda, já que a ilha a qual ela se refere, certamente, é a de São Tomé e Principe, para onde a escritora voltou aos 37 anos. Neste mesmo parágrafo ela descreve alguns detalhes da praia, algo que somente um nativo, ou alguém muito familiarizado com o local poderia fazer. O conto segue ainda aludindo ao costume dos mais velhos de contar estórias do passado, uma atitude que ajuda a manter a cultura do local, como nesse trecho: “Foi assim que avó Juta a contou a nós, seus netos de Guadalupe e Morro Peixe muito antes da vida nos atirar pelos sete cantos do mundo.” É nítido nesse trecho o tom saudosista, uma lembrança de algo marcante, um contato estreito com a avó e um tom de lamento por ter de deixar, tão pequena, a sua terra, Guadalupe, e ir pra a Lisboa, aonde seguiu a sua carreira de sucesso.

De acordo com a história da África, a ilha de São Tomé e Príncipe no século XV era um grande produtor de cana-de-açúcar, mas com a concorrência do Brasil no século seguinte entrou em declínio, tornado-se um “deposito” de escravos. Esse fato não escapa a escritora, que conta que avó Juta “... ficava séria quando falava de gente acorrentada que um dia chegou à ilha e nunca mais conseguiu encontrar o caminho de regresso.”. É nesse contexto que a lenda do Menino D’ôbô parece ter inicio: “Um dia, porém, viste o chicote cair no teu corpo. Como aos outros escravos. Eras ainda um menino. Pequeno de mais para a grandeza da roça onde te despejaram. Mas tinhas nascido livre”. Essa liberdade é metaforizada pela escritora com o vento, como se o menino, escravizado, fugiu e tomou o rumo de seu destino e depois disso nunca mais foi visto, o que diz a lenda é que ele caminhou várias léguas, se alimentado de frutos, raízes e tudo o mais que a natureza pode oferecer e depois de passadas dez luas um forte vento assolou a ilha “e Sumu Zéfé, o curandeiro mais famoso daquele tempo, contou que vira no seu d’jambi o menino d’ôbô entrar em todas as casas e não sair mais”. Assim, a lenda e o sofrimento pelos qual os escravos passaram, simbolizado no menino, ainda hoje é lembrado pelo povo e preservado com todo respeito e carinho, como prova este conto de Olinda Beja.

Esse tom poético se mantém, talvez com mais intensidade, em “Olhos de Ma Chêchê”. Dividido em três partes, esse conto narra a história de uma menina que nasceu muito linda “na roça grande de Água Izé”. Trata-se de uma aldeia na Ilha de São Tomé e Príncipe produtora de café e cacau, portanto novamente a autora faz alusão ao seu país de origem. Apesar de muito bela o principal encanto de Ma Chêchê estava nos olhos que não eram iguais aos de ninguém, pois neles se podia ver o mar e se podia ler tudo, devido ao imenso azul deles, “já viu negra com olhos da cor do mar?”. Essa é uma indagação feita pela escritora neste conto, louvando desta forma a beleza da raça de seu povo e do mar de sua terra, aproximando um e outro. Nesse conto, assim como em Menino D’ôbô, palavras estranhas a nossa língua figuram em muitas passagens, o que não impede a leitura e nem a compreensão dos textos, já que da forma como são apresentadas, pelo contexto, se pode inferir o seu sentido. Assim, é possível perceber um esforço por parte da autora em divulgar os costumes e as peculiaridades de sua terra que, apesar de ter como língua oficial o português, possui a sua autonomia de registro, comprovando a grande riqueza da língua.

Por fim, o leitor que se aproximar da obra de Olinda Beja, especialmente Pé-de-perfueme, será transportando a um mundo de lendas contadas por uma nativa da terra de São Tomé e Príncipe e certamente irá se inebriar com o perfume daquela árvore, que dá título ao livro, típica da ilha que gerou a escritora. Além disso, o lirismo da prosa poética dessa escritora é um convite a mais para se aventurar em toda a sua obra que, longe de clichês, divulga ao mundo a riqueza da cultura do povo africano.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Você não leu esse livro?!

Quem é professor de língua portuguesa ou estudante de letras já deve ter se acostumado com pessoas achando que sempre devemos saber tudo sobre o livro do qual elas perguntam alguma coisa. Mas isso é impossível, afinal como saber se estamos lendo exatamente aquele livro do qual vem a pergunta? Mas nesta semana descobri que é possível falar de livros não lidos. Quem ensina é o professor de literatura francesa da Universidade de Paris Pierre Bayard, na obra Como falar dos livros que não lemos?
O autor mostra, entre outras coisas, que conhecer a “fama” de uma obra fornece bons argumentos para até se escrever um artigo sobre ela. Além disso, ele explica que folheando um livro é possível falar com muita propriedade de seu conteúdo.
Bayard alerta também para as escolhas que fazemos. Afinal, ao eleger um livro para ser lido em determinado momento, o fazemos em detrimento de outros. Há uma infinidade de obras publicadas no mundo todo. Isso considerando somente os livros impressos, porque com o advento da internet a quantidade de textos publicados é muito grande.
Porém, de acordo com o professor, isso não nos impede de palestrar sobre determinada obra, e até defendê-la ou criticá-la com bons conceitos, causando uma boa impressão até no leitor mais voraz daquela obra.
Concordo em partes com essa obra. Afinal é impossível ler tudo que queremos, gostamos ou somos obrigados (pela mídia, por outros leitores, pelos alunos, etc.). Mas sempre acabamos lendo algo sobre a obra ou ouvimos, daqueles mesmos que nos pressionam, muito sobre ela, assim, sabemos bastante para reproduzirmos depois. Há a chamada bagagem leitora. Porém, para se chegar a ela é necessário que se tenha lido muitas outras obras, ou ainda textos especializados no assunto. Então, a prática da “não leitura” não deve ser estimulada pelos profissionais que tem a missão de formar novos leitores, eles devem se impressionar com o conhecimento prévio do professor de língua portuguesa ou do acadêmico de letras e formar o seu próprio arcabouço de leituras.
Concluindo o assunto, me senti consolado ao ler essa obra, afinal um aficionado por leitura é sempre um frustrado, pois nunca consegue ler tudo o que quer devido a grande quantidade, mas muitas vezes sei bastante coisa sobre a obra, de tanto ler sobre ela ou ouvir falar. No entanto, nunca me arrisco numa discussão por não ter lido. E agora “os problemas acabaram” haha. Sempre tinha a famosa frase na ponta líng ua: “como não tenho muito tempo pra leitura, só leio o que gosto”, mas gosto de tanta coisa e não consigo ler, isso significa que nunca vou ler o que alguma pessoa me indicou. E olha, posso dizer que a estratégia apregoada por Bayard funciona, porque escrevi este texto sobre a obra sem tê-la lido toda.

sábado, 17 de julho de 2010

Fim do curso

Com fim da faculdade algumas dúvidas pairam sobre nossas cabeças, o futuro nos aguarda. Antes estávamos protegidos pelas paredes da sala, mas agora temos que tomar as nossas próprias decisões, ou seja, conquistamos a liberdade!


Essa conquista deveria nos encher de orgulho e de satisfação, no entanto saber que agora as exigências não vêem mais dos mestres, doutores e especialistas, vêem de nós mesmos, causa um certo temor. Temor sobre qual caminho seguir: especialização, mestrado, nada (há pessoas que preferem essa opção), ficamos agora sem rumo, na verdade inseguros sobre ele.


Dúvidas pairam sobre nossas cabeças, mas de uma coisa temos certeza, queremos o sucesso! E o merecemos, afinal foram três anos e meio de dedicação esforço e da mais pura entrega, ou quem viu as defesas duvida dessa entrega por parte de todos que lá estavam? Na verdade essas dúvidas só nos assolam agora, quando ainda sentimos o calor dos encostos das cadeiras em nossas costas, porque na verdade todos sabem exatamente para onde vão, uns para bem longe, outros fisicamente nem tanto, mas o contado estreito que ora tivemos não mais voltará. Ficará entre nós somente a lembrança de um tempo que éramos felizes juntos, mas não soubemos levar a uma dimensão maior essa felicidade. Ao nos despedirmos definitivamente da vida de acadêmicos em Letras no próximo dia 28, teremos a certeza de que foi bom termos nos conhecido e que o futuro é uma caixinha de surpresa, não tão desconhecida assim, pois sabemos de uma coisa que estará lá dentro quando a abrirmos, a saudade. E com certeza nos encontraremos "um dia desses, num desses encontros casuais" como diria a canção e já não seremos mais os mesmos, estaremos maiores e mais evoluídos.

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